Cheguei na Dinamarca no dia 31 de março. O dia em que seria o aniversário da minha mãe. E, ainda que ela não esteja fisicamente aqui, senti que estava iniciando uma viagem em sua celebração.
Não fomos exatamente bem recebidos na primeira instância. Tínhamos passado algumas horas no aeroporto de Lisboa e depois pego mais 3h30 de vôo até aterrizar em Copenhague. Eu estava ansiosa pra conhecer os países mais felizes do mundo. Mas ao pisar no aeroporto fomos convidados, por seguranças com feições que não transpareciam tanto assim essa felicidade, a passar pela “salinha”, pela primeira vez para mim.
Tudo correu bem, mas isso, somado à bagunça de sentimentos que eu sentia naquela data, me fez deixar cair algumas lágrimas. À noite a cidade é escura e quieta. O frio é mesmo cortante, de “penetrar nos ossos”, como diziam meus familiares quando o vento gelava no interior.
Depois de uma noite não tão bem dormida em uma tenda em um hostel não tão silencioso, o céu nasceu completamente azul. Ainda me admira o quanto as cidades europeias tem um azul limpo em seus céus. Fomos caminhando pelas ruas largas e limpas, cheias de prédios históricos, até enfim encontrar Nyhavn, o canal com porto e as casinhas típicas de lá.

As lágrimas de angústia do dia anterior foram substituídas por um sentimento de maravilhamento. Foi ali que comecei a perceber. A Dinamarca era mesmo diferente de tudo que eu já havia visto, mas não só pela aparente ordem das coisas.
As pessoas estavam sentadas em mesas à margem do rio, saboreando suas comidas e bebidas, conversando umas com as outras, de tempos em tempos fechando os olhos para SENTIR com mais profundidade o sol em sua pele. Sem pressa. Sem fuga. Sem distração. Em total presença.
Ao longo dos dias passamos pelo canal inúmeras vezes, porque eu queria conferir se mesmo nos dias gelados e nublados aquela ordem se mantinha. E mesmo sem pessoas, sim, aquela era mesmo a energia do lugar.
Comecei a me questionar por quê.
Nesse e nos dias que se seguiram, passamos por parques, museus, bibliotecas, prédios, castelos e catedrais belíssimos, ruas cheias de lojas, souvenirs e pessoas. Além, é claro, dos inúmeros cafés em que saboreamos capuccinos, Kanelsnegles (rolinho de canela, tipo os famosos “cinnamon rolls”) e toda a EXTRAORDINÁRIA pastelaria dinamarquesa. E em todos os lugares, eu seguia notando uma profunda presença e valorização do ordinário.

O dia em que separei para gravar a aula da Viagem Interna amanheceu cinza e gelado. Eu queria muito gravar um vídeo que mostrasse as casinhas e o canal ao fundo e aquela era a chance, porque já tínhamos outras coisas planejadas pros outros dias. Mas quando coloquei o tapetinho em um pier de concreto com uma linda vista das casinhas, ele voou com o vento. Quando tirei uma das 3 calças e a luva, achei que fosse congelar. A sensação era de 0 graus. Mais do que o corpo sendo penetrado pelo vento, a mente começou a me convencer de que talvez não era uma boa ideia. De que eu talvez não conseguiria passar da primeira postura da sequência que senti em criar. Mas eu estava ali e não sabia quando voltaria. Me lembrei de quando, lá em 2021, sonhei em ensinar yoga enquanto viajava. Eu estava vivendo meu sonho, em lugares que nem imaginava que conheceria tão cedo. Havia um frio quase paralisante fora, mas uma gratidão quente do lado de dentro pra me impulsionar.
Nessa nova coletânea de aulas (Viagem Interna 2.0), diferentemente da primeira, escolhi trazer como tema das aulas a sensação que os lugares me despertavam.
Em 2024, quando a primeira coletânea nasceu no meu mochilão, eu escolhi usar como guia das aulas as partes do corpo. Eu tinha acabado de perder a minha mãe. Eu precisava voltar pra matéria, afinal, antes de encarar minhas sensações, sentimentos e sutilezas.
Agora, em 2026, eu me sinto um pouco mais pronta pra permitir que os lugares me atravessem de forma mais profunda e mais corajosa pra encarar quando me mostram o que posso sentir neles e através deles.
Depois de muito observar, eu entendi que muito da presença e valorização que eu via nas ruas, lugares e pessoas dinamarquesas nascia de um equilíbrio entre forças opostas. É por passar por meses de muito frio que eles valorizam tanto o sol a ponto de sair buscá-lo nas ruas e fechar os olhos para ofuscar tudo que impressa de senti-lo. É pelo clima ser tão rigoroso que suas casas viraram refúgios aconchegantes.
É por conhecer a escuridão que eles valorizam e buscam a luz.
Inspirada por esse estilo de vida tão genuinamente presente, que depois descobri ser nomeado HYGGE, que trouxe para a aula o tema de equilíbrio.
Não como a ideia superficial que geralmente temos de ordem aparente das coisas.
mas como um balanceamento entre opostos-complementares. a luz e a sombra. o frio e o calor. a felicidade e a tristeza. o material e o sutil. o corpo e a emoção.
Meu convite através dessa prática e texto é para que pensemos nisto: não podemos evitar as oposições e oscilações duais de nossas vidas. Mas podemos aprender a vivenciá-las em suas máximas potências. E valorizar cada ensinamento e experiência que temos através e por causa delas.
Por isso, te pergunto:
Que opostos você tem experimentado por aí?
O que você já aprendeu a valorizar por causa de alguma escuridão que viveu?
Onde na sua vida você está buscando equilíbrio como ausência de conflito, quando na verdade ele só vem de oscilar e dançar entre os dois lados?
E, por fim, como você atravessou esse texto e se deixou atravessar por ele? O que dele você quer levar contigo?
me deixe saber nos comentários.
com amor,
namastê
Lara 🩵🦋✨

